Assassinato de cachorra gera mais comoção que de jovem de periferia – Notícias





A comoção nas redes sociais, com compartilhamentos e engajamentos, mostrou que a morte da cachorra, vítima de golpes com uma barra de alumínio de um segurança do Carrefour de Osasco (SP), sensibilizou mais os internautas que o adolescente assassinado a tiros por um segurança de posto de combustível na Vila Formosa (zona leste da capital).


Os crimes aconteceram em situações que guardam alguma semelhança pelas circunstâncias e pela participação de seguranças.


A cachorra vira-lata morreu no supermercado no último dia 28 de novembro. O skatista Marcos Tonioli, conhecido como Suco, 17 anos, estava andando de skate com amigos no posto de combustível, no dia 28 de março, quando um segurança incomodado com a presença do grupo tentou expulsá-los. Os amigos de Suco discutiram com o funcionário e, quando o jovem teria tentado apaziguar, levou dois tiros nas costas.


A morte do skatista foi noticiada por vários veículos. Nenhuma reportagem, no entanto, teve a mesma repercussão que as da cachorra. As pessoas comovidas pela morte de Suco também criaram um abaixo-assinado online para realizar uma homenagem póstuma ao jovem. A petição foi assinada por 5.189 pessoas. O mesmo aconteceu com a cachorra: pessoas comovidas organizam abaixo-assinado online pedindo a prisão do segurança: em três dias atingiu mais de 1,7 milhão de assinaturas, e não para de crescer.


A primeira reportagem feita pelo R7 sobre a morte do jovem, em 5 de março, teve pouco mais de cem interações nas redes sociais. Já a primeira notícia sobre a cachorra ultrapassou as 9 mil interações. A notícia da liberdade do agressor da cachorra atingiu quase 200 mil interações nas redes sociais em menos de um dia.


Nove meses depois da morte do filho, Rosângela Tonioli, mãe de Marcos Suco, afirma que toda a família foi afetada pela tragédia, principalmente pela falta de uma punição — o suspeito de matar o jovem ficou preso por 40 dias. “Nós, como pais de vítimas, queríamos ver as coisas acontecendo mais rápido, porque a Justiça brasileira é muito lenta”, diz. 


“O meu filho estava brincando no momento em que foi morto, e a cachorra também. Ambos não tinham como se defender”, constata. “E, agora, os dois casos não vão ter uma resposta”, acrescenta.


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Repercussão





Na última quarta-feira (5), quatro das sete notícias mais lidas do R7 remetiam à morte trágica da cachorra, agredida por um segurança de um supermercado com golpes de uma barra de alumínio, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo.


Em números, as reportagens que trataram do caso da cachorrinha, desde a terça-feira (4), renderam quase 460 mil acessos no portal R7. Por outro lado, o caso do skatista morto em março deste ano repercutiu bem menos: 5.600 visitas.


Também houve um abismo entre os números da repetição da história nas redes sociais do R7. No caso da cachorra, houve 51,2 mil compartilhamentos da história no Facebook, contra 115 interações do caso do skatista.





Com a palavra, os especialistas





O professor Vitor Blotta, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo), não acredita que as pessoas se importam mais com os animais do que com os seres humanos. “Se a violência fosse cometida contra uma pessoa de classe média, uma pessoa branca, que tem o status de maior reconhecimento na sociedade, geraria muito mais engajamento do que o caso do skatista, por exemplo”, diz.









De acordo com o professor da USP Pablo Ortellado, coordenador da Gpopai (Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação), todas reportagens sobre a cachorra foram “incrivelmente mais compartilhadas” do que a do adolescente. Dados fornecidos pelo professor, com base no software Monitor do Debate Político no Meio Digital, no total, o caso do skatista teve 4.900 engajamentos no Facebook, enquanto da vira-lata 473 mil até o início da noite desta quarta-feira (5).


Manifestações de rua foram marcadas para o próximo sábado (8), em sete cidades brasileiras, entre elas Porto Alegre. Apenas no evento marcado em Osasco, mais de 40 mil pessoas se colocaram como interessadas em comparecer e 9 mil confirmaram presença. Diversas fotos, vídeos, ilustrações e post de indignação pela morte do animal também marcam o envolvimento das pessoas.


Blotta afirma que as imagens do crime também podem contribuir para a visibilidade do caso. “Um tem o vídeo que mostra a violência diretamente e o outro não tem, e isso faz uma diferença muito grande”. O vídeo que mostra a cachorra ferida e outro do momento que ela foi resgatada também estão entre as publicações com bastante interação. 


Segundo o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, autor do livro Psicologia da Agressividade, uma das explicações para a falta de engajamento em casos como do skatista é “que quando acontece um crime que é excepcional ou atípico a reação da opinião pública é mais traumática, e infelizmente o assassinato de adolescentes, hoje, se tornou uma notícia comum”.


Para Ortellado, três elementos são os possíveis motivos para o maior engajamento das pessoas nas redes sociais. Segundo ele, a forma como o repórter faz a cobertura do caso, o destaque que a reportagem tem nos sites de notícias, e o próprio interesse do público em difundir a história.


Já Goldberg destaca que foi criado na população uma desconfiança de casos que adolescentes sofrem violência, levantando uma possibilidade de o jovem estar envolvido em algum crime. “O elemento que se sobressai desse animal foi o agravante da covardia e da impossibilidade de uma resistência através da manifestação da palavra, ou seja, não tinha nenhuma outra pessoa para defende-lo”.


De acordo com Goldberg, como o cachorro é mais solitário que as pessoas, que têm familiares que possam manifestar por eles, se sentem estimuladas a lutar pedir por justiça. Os compartilhamentos nas redes sociais mostram que as pessoas estão indignadas com a possibilidade do agressor da cachorra não ser preso.









Mas pouco se tem de notícias acerca do responsável pela morte de Suco. Depois do crime, o segurança ficou foragido. Procurada pela reportagem nesta quarta-feira, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) disse que o autor teve a prisão temporária decretada, sendo cumprida em maio, mas está em liberdade após decisão judicial.


O R7 questionou o TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) sobre o período que o segurança ficou preso e por que ele foi posto novamente em libertade. A resposta foi que “o processo em questão está na 1ª vara do júri, mas como está em segredo de justiça, não temos acesso às informações sobre nenhum andamento”.


*Com a colaboração de Plínio Aguiar, do R7

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